[Artigo] Ensaio sobre a Masculinidade: Um Caminho para os Sonhos

“Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha ima­gem perdida nos abismos do desespe­ro, minha imagem de cuja face já não me lembro mais. (…) Sairei de mim mesmo em busca das melodias es­quecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e bele­za, em busca dos milagres ainda não acontecidos”.

(Uma Viola-de-Amor. Vinícius de Moraes)

O poetinha lança-nos o desafio para sair­mos do lugar comum, num mergulho profun­do em nós mesmos, que nos levaria a sair dos papéis que rotineiramente desempenha­mos, redescobrindo assim os empoeirados sonhos de outrora, que trazem em si a pos­sibilidade de renovados milagres para o dia a dia ordinário, demasiadamente ordinário.

Um dos traços que têm sido valorizados e vividos como sendo marcadamente mascu­linos é a racionalidade. Em uma sociedade erguida fundamentalmente pela perspectiva masculina, conhecemos a ditadura da razão. Numa época dita cientificista, a racionalida­de ocupa lugar de destaque; para os que têm dúvidas a respeito basta observarmos a ati­tude de concordância toda vez que anunciam que pesquisadores de determinada Univer­sidade dizem que … chocolate faz bem… faz mal ou que café faz mal… faz bem. E assim vamos ao sabor variavelmente (in)seguro das opiniões da ciência.

O pensamento racional que se acostu­mou ao jeito de pensar da ciência prima por aquilo que pode ser explicado, comprovado e reproduzido. E assim vamos esparraman­do esse “jeitinho científico de ser” para o cotidiano, com que queremos explicar, com­provar e reproduzir, habitualmente a nossa mentalidade sobre as coisas.

Em um mundo assim os sonhos não têm muito espaço, sendo vistos como desrazão, via para a loucura, terra em que não se pode confiar. Há quem pense que homem que é homem deve andar com os pés fincados no chão, e não com a cabeça nas nuvens le­vados por sonhos impossíveis que não têm explicação alguma. Temos também os que dizem que acreditar nos sonhos é viver no mundo da imaginação, e a imaginação para estes não é algo confiável. Porém a imagina­ção fala daquilo que ainda não é, mas quem sabe pode vir a ser; lembrando em sua es­sência a própria natureza da fé:

“A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem.” (Hebreus 11.1).

Ao pensar em homens que contrariaram a lógica da razão e se aventuraram a andar guiados por seus sonhos, não consigo deixar de pensar em José, marido de Maria, mãe de Jesus. Este homem desafiou a ditadura da razão e teve a ousadia de viver a partir de seus sonhos. É com José que aprendo que homem que é homem deve sonhar. Vejamos:

Quando os Sonhos Moldam as Ações

É absolutamente intrigante, como bem assinalou Leonardo Boff em seu livro São José, que não há nenhuma palavra na Bíblia atribuída a José: apenas sonhos. No Novo Testamento na maioria das vezes que a pa­lavra sonho surge, está associada a José. E são os sonhos de José que vão dar contorno às suas ações, como no momento em que recebe como esposa uma jovem grávida e assume o menino como filho, dando-lhe o nome de Jesus, e tudo isso ocorre quando em meio aos seus planos de fuga, diz-nos a Escritura:

“Enquanto assim decidia, eis que o Anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho…” (Mateus 1.20)

A partir de então José, o carpinteiro, permite que sua vida seja lapidada a partir dos sonhos (Mateus 1.24).

Há quem sonhe, e apenas viva nos so­nhos. José é o que aproxima os sonhos da realidade, haja vista que oferece “pregos e madeira” a fim de materializá-los, de modo a oferecer concretude aos seus sonhos por meio dos seus gestos. José é uma represen­tação dos cristãos que conhecemos no dia a dia, que não são reconhecidos pelo que dizem, mas sim pelo que fazem, desafiando-nos a uma espiritualidade que se torna evi­dente nas ações que revelam os sonhos que abrigamos no coração.

Em muitos momentos as lutas da vida, as decepções e amarguras levam-nos a abandonar sonhos de outrora; e ao invés de agirmos possibilitando que o Reino de Deus chegue aos lugares por onde transitamos, nossas omissões e renúncias tornam o viver árido de sonhos e repleto de um realismo enfermante que não nos permite ver para além das coisas. Lembro-me de um poema da Adélia Prado em que ela diz:

“De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo” (Adélia Prado. O Coração Disparado).

Apenas discordo da Adélia: de fato não foi Deus que nos tirou a poesia, mas sim nós que nos afastamos da poesia de Deus, poesia que transforma caos em jar­dim. Precisamos recuperar esta capacidade dada por Deus de enxergar para além das coisas, iluminados pêlos sonhos que Ele nos deu e percebendo o que precisamos fazer em nosso viver, para torná-lo em sintonia com os sonhos adormecidos na alma.

Quando os sonhos nos dão direção

Depois de afirmar que José teve a cora­gem de agir na perspectiva que lhe foi dada por seus sonhos, precisamos fazer um pe­queno ajuste, levando em conta que José não era alguém que simplesmente ia fazendo, que seguia realizando; não se tratava de alguém que estava todo o tempo ocupado demais na realização dos sonhos que nutria no coração. Mas José era capaz de mudar de direção guiado pela indicação dos seus sonhos.

Tem gente que faz questão de afirmar que foi sempre desse jeito e não vai mudar nun­ca, ou ainda de acordo com o dito popular: “pau que nasce torto, morre torto”. Podemos aprender com José sobre a capacidade de mudar de direção, na medida em que ouvi­mos os nossos sonhos. José permitiu que

seus passos fossem reorientados pêlos so­nhos que vieram ao seu encontro. Isso nos lembra as palavras de outro José, um por­tuguês de sobrenome Saramago, que diz: “as pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas”. A fala de Saramago aponta para o sentimento que temos diante de determi­nados sonhos de que eles se grudam a nós, e por mais que os tentemos silenciar eles retornam, emergem como a bola que tenta­mos manter embaixo d’água na praia e ao soltarmos ela salta novamente.

Os sonhos de José não só o acompanham mas dirigem seus passos. José vai para o Egito diante das ameaças de Herodes e posteriormente retorna para Nazaré, sem­pre orientado pelos sonhos que emergiam em sua alma (Mateus 2.13,19,22). José po­sicionava a vida a partir da bússola dos seus sonhos e por isso, apesar dos tempos som­brios que enfrentou, seu caminho seguia iluminado pelo brilho dos seus sonhos. Uma masculinidade saudável requer uma avalia­ção das direções que tomamos, se nos con­duzem para mais perto ou mais longe dos sonhos que em muitos momentos seguem adormecidos nos porões de nossa alma.

Quando os sonhos revelam nossas convicções

Neste ponto é importante considerar acer­ca da origem dos sonhos de José. José de fato orientou sua jornada e suas ações pelos so­nhos que teve, mas afinal qual era a fonte dos sonhos deste homem? Ao nos aproximarmos da história de José, percebemos que seus sonhos não apontam exclusivamente para as profundezas de seu inconsciente, mas espe­cialmente para a altura de suas convicções. As raízes de José estão para cima, visto que Deus é a fonte dos seus sonhos.

Basta verificar que os seus sonhos fa­lam sempre do anjo do Senhor, que traz a visão de Deus para a sua vida (Mateus 1.20; 2.13 e 2.19). José estava afinado com a vi­são de Deus para a sua jornada e recusava–se a ficar indiferente ou omisso diante dos projetos de Deus para a sua história, que se revelavam por intermédio dos sonhos que floresciam em sua alma. Os sonhos de José tinham origem em Deus e o convidavam para ser instrumento de bênção para a sua família e ainda para tornar sua família canal de bênçãos e salvação.

O convite ainda segue dirigido para os ho­mens de nosso tempo, ocupados e sobrecar­regados com tanta coisa, mas ainda chamados pêlos sonhos de Deus para tornarem sua casa instrumento de bênção e salvação. Você vai aceitar o convite? Ainda é tempo de sonhar.

Conclusão

Vivemos em um mundo onde nem sem­pre os sonhos são bem-vindos. Somos cha­mados à realidade o tempo todo, a trabalhar duramente e comer o pão de dores, no en­tanto somos lembrados pela Palavra que há algo para além do “pão nosso de cada dia”. Deus tem sonhos preciosos para nós e para nossas famílias. Sua Palavra insiste em nos dizer que a realidade está para além do que nossos olhos conseguem captar.

Por isso o profeta nos avisa sobre a re­comendação de Deus:

“Quanto os céus es­tão acima da terra, tanto meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e meus pensamentos acima dos vossos pensamen­tos” (Isaías 55.9).

De modo que podemos ser inspirados pelos pensamentos de Deus, que nos impulsionam a seguir apesar do que está dado, pois caminhamos pela fé, cren­do que Deus é aquele que pode fazer com que os sonhos floresçam mesmo em meio a tempos sombrios e adversos.

Fonte: Homem Batista

[Artigo] Ensaio sobre a Masculinidade: O Exemplo de Jesus

“Não poderei dizer se era alto ou baixo, feio ou bonito. Ao meus olhos era gigante, terrível, belo e sábio”

(Rachel de Queiróz, O Catalão, do Livro Melhores Crônicas: Rachel de Queiróz.)

O fragmento da narrativa de Rachel de Queiroz talvez desnude diante de nós parte do imaginário que construiu a visão acerca da masculinidade. Revelando que a mascu­linidade tem sido tecida ao longo da história a partir dos fios da força, virilidade, beleza e da razão; e incontáveis vezes estes elemen­tos desembocaram em cenas de machismo, autoritarismo e preconceito.

Contudo, mfemo desempenhando os papéis que têm sido previamente designa­dos aos homens de nossa sociedade, não são poucos os que descobrem por trás das máscaras, sujeitos que trazem questiona-mentos e incertezas acerca deste modo de ser largamente difundido, apesar das mui­tas marcas, mágoas e distanciamentos que produziu.

Crescemos e nem sempre amadurece­mos, mas ao longo do processo vezes sem conta fomos sendo regados com expressões como: – Homem não chora; – Isso não é coi­sa de homem, menino; -Você é homem ou não é?; – Homem é assim mesmo. E assim nossos corpos e mentes foram tantas vezes forjados ao longo dos anos por uma socie­dade decaída e que naturalizou a concepção de masculinidade que ditaram os rumos em nossa cultura.

Vivemos dias em que a masculinidade precisa rever os seus referenciais, tempos em que a cultura dominada pêlos homens foi abalada pêlos efeitos da revolução sexual, do feminismo e dos questionamentos trazi­dos nas discussões sobre género, fazendo–se necessário neste novo tempo encontrar o caminho para uma masculinidade saudá­vel.

Para isso, vale retornar aos passos dei­xados por Jesus, visto que Ele é o modelo para os cidadãos do Reino de Deus, ou como diz Paulo:

“Porque as Escrituras Sagradas dizem: ‘Adão, o primeiro homem foi criado como ser vivo.’ Mas o último Adão, Jesus Cristo é o Espírito que dá vida. Não é o espi­ritual que vem primeiro, mas sim o material; depois é que vem o espiritual. O primeiro homem foi feito do pó da terra; e o segundo veio do céu. Os que pertencem à terra são como aquele que foi feito do pó da terra; os que pertencem ao céu são como aquele que veio do céu.” (I Coríntios 15.45-48 – Nova Tradução na Linguagem de Hoje).

Portanto, vamos nos debruçar sobre as diretrizes de uma masculinidade saudável que nos foram deixadas para os cidadão do reino dos céus por meio do exemplo de Je­sus:

Um Homem que Sentia

É fascinante perceber como Jesus encon­trava-se em sintonia com seus sentimentos. De modo singular o Cristo não procurava enterrar suas emoções, mas as vivenciava de maneira plena. Jesus era atento aos seus sentimentos e encontrava maneiras ade­quadas de responder a eles. Diante de uma viúva que perdera seu único filho, Jesus a vê e se comove (Lc 7.13). O escritor português José Saramago em seu livro Ensaio sobre a Cegueira declara: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Andamos tão ocupados que nada vemos, passamos pelas coisas e é como se tudo ficasse invisível. Tantos não

conseguem nem ao menos perceber os si­nais que surgem nas expressões de seus familiares. Pois em tantos momentos não vemos este outro e por conseguinte nada sentimos. O milagre de Jesus é desencade­ado na medida em que Ele vê o sofrimento daquela mulher e se permite ser tocado por seu drama. Não haveria milagre se Jesus ti­vesse reprimido seus sentimentos.

De igual maneira ao perceber os cami­nhos e descaminhos tomados pela cidade de Jerusalém, o Mestre não reage contendo seus sentimentos, mas revela sua frustra­ção e tristeza quando suas lágrimas aflo­ram:

“E, como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela” (Lucas 19.41).

Em outro momento, sua indignação emerge diante da mercantilização do Templo (João 2.16) ou ainda demonstra profunda sensibilidade ao recusar-se a condenar uma mulher que sofria com fluxo de sangue à invisibilidade, mas afirma:

“Alguém me tocou” (Lucas 8.46).

Segundo Brennan Manning, “o retraio de Jesus no evangelho é o de um homem sen­sivelmente harmonizado com suas emoções e desinibido para expressá-las. Não se en­contra em Cristo nenhuma atitude de des­dém, desprezo, temor, zombaria ou rejeição de sentimentos como sendo volúveis, bizar­ros e inconstantes. Eles eram antenas emo­cionais sensíveis com as quais ele escutava com atenção…”.( M. Brennan. Um Vislumbre sobre Jesus)

Uma visão sobre a masculinidade que ig­nore o poder e o valor das emoções é segu­ramente uma perspectiva míope. Jesus nos apresenta a possibilidade de acessarmos o que sentimos, como indicador para relações mais saudáveis e abençoadoras. Durante muito tempo e para muita gente, a masculi­nidade estava ligada a uma recusa em lidar com sentimentos ou, quando muito, apon­tava para reações pontuais de descontrole, ligadas a ira e a violência seja física, verbal ou afetiva.

Reconhecer o que sentimos é funda­mental para orientar nossas ações e cami­nhos. Lembra a ação do motorista atento não somente ao trânsito mas que também enxerga as indicações do painel do veículo, que informa sobre o óleo, a temperatura, o combustível etc.; assim como dirigir requer atenção ao estado do carro informado tam­bém no painel, viver de maneira saudável requer atenção às indicações dadas pêlos sentimentos e emoções, não para sermos escravos deles, mas sim para usá-los de maneira plena como Jesus nos ensinou.

Um Homem que Ouvia

Durante muito tempo houve uma deman­da sobre o homem como aquele que preci­sava dar as respostas. A figura do homem sábio, que tem as soluções e com isso daria as diretrizes. Muitos mergulharam de cabe­ça neste modelo, sem se darem conta de que era raso demais para as questões envolven­do o viver, ou numa inversão de acordo com a fala de Cecília Meirelles: “Eu sempre disse que era grande o oceano para nossa pequena barca”, apontando para as fragilidades pessoais frente às demandas externas.

No entanto temos um caminho apresen­tado por Jesus que é inspirador. Veja como o Mestre, apesar de sua natureza divina, de maneira plenamente humana tinha a capaci­dade de indagar, ao invés de trazer respos­tas prontas. Frente ao cego de Jericó que clamava por compaixão, Jesus interrompe a jornada, se aproxima e pergunta:

“Que queres que te faça?” (Marcos 10.50).

Jesus desvela uma masculinidade capaz de ouvir seja a fala do outro, sejam as expressões do coração.

É curioso, como bem alerta o escritor Ru­bem Alves, que são muitos os cursos de ora­tória que seguem pipocando por aí, contudo não se vê nenhum curso de “escutatória“, pois a arte de ouvir mostra-se complicada e sutil. Como ainda afirma o pensador mineiro em seu livro O Amor que Acende a Lua: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Por isso para tantos é tão difícil ouvir o outro, pois sempre temos o que dizer. A história do outro é rapidamen­te esquartejada diante do nosso: “Mas isso não é nada, veja o que aconteceu comigo…”. Portanto, esta incapacidade de ouvir aponta em dados momentos para a nossa própria arrogância, pois o que importa seria apenas o que temos a dizer.

Jesus conseguia silenciar a alma e es­cutar: a necessidade, o sofrimento e as in­dagações do outro. Jesus não interrompia ou impedia o que o outro tinha a dizer com suas próprias declarações, mas dava valor ao que o outro tinha por dizer, como no diá­logo com os discípulos:

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mateus 16.15)

Havia espaço na convivência com o Mestre para que Ele escutasse o que estava no coração dos seus seguidores. Isto não o tornava menor, mas evidenciava sua grandeza. Reconhecer que precisamos ouvir o outro e com ele podemos aprender, não nos diminui, mas amplia nos­sas possibilidades enquanto homens.

Conclusão

Sobre o homem Jesus, poderíamos para­frasear João e dizer que Ele fez e ensinou muito mais do que apresentamos até aqui. Mas, se fôssemos tentar colocar tudo, esta lição viraria livro e ainda assim não seria suficiente. Por isso, este não é um ponto de chegada, mas a indicação de um caminho a seguir, onde o Mestre torna-se nosso guia e referência para uma masculinidade sau­dável.Lembro-me do convite de Jesus:

“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora­ção, e encontrareis descanso para vossas almas, pois o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30).

Aqueles que se encontram pressionados por cargas imen­sas são convidados a chegar mais perto do modo de vida de Jesus de Nazaré, e apren­derem com Ele um jeito mais leve de viver e que pode trazer cura nas relações diárias.

Fonte: Homem Batista