[Artigo] Ensaio sobre a Masculinidade: O Exemplo de Jesus

“Não poderei dizer se era alto ou baixo, feio ou bonito. Ao meus olhos era gigante, terrível, belo e sábio”

(Rachel de Queiróz, O Catalão, do Livro Melhores Crônicas: Rachel de Queiróz.)

O fragmento da narrativa de Rachel de Queiroz talvez desnude diante de nós parte do imaginário que construiu a visão acerca da masculinidade. Revelando que a mascu­linidade tem sido tecida ao longo da história a partir dos fios da força, virilidade, beleza e da razão; e incontáveis vezes estes elemen­tos desembocaram em cenas de machismo, autoritarismo e preconceito.

Contudo, mfemo desempenhando os papéis que têm sido previamente designa­dos aos homens de nossa sociedade, não são poucos os que descobrem por trás das máscaras, sujeitos que trazem questiona-mentos e incertezas acerca deste modo de ser largamente difundido, apesar das mui­tas marcas, mágoas e distanciamentos que produziu.

Crescemos e nem sempre amadurece­mos, mas ao longo do processo vezes sem conta fomos sendo regados com expressões como: – Homem não chora; – Isso não é coi­sa de homem, menino; -Você é homem ou não é?; – Homem é assim mesmo. E assim nossos corpos e mentes foram tantas vezes forjados ao longo dos anos por uma socie­dade decaída e que naturalizou a concepção de masculinidade que ditaram os rumos em nossa cultura.

Vivemos dias em que a masculinidade precisa rever os seus referenciais, tempos em que a cultura dominada pêlos homens foi abalada pêlos efeitos da revolução sexual, do feminismo e dos questionamentos trazi­dos nas discussões sobre género, fazendo–se necessário neste novo tempo encontrar o caminho para uma masculinidade saudá­vel.

Para isso, vale retornar aos passos dei­xados por Jesus, visto que Ele é o modelo para os cidadãos do Reino de Deus, ou como diz Paulo:

“Porque as Escrituras Sagradas dizem: ‘Adão, o primeiro homem foi criado como ser vivo.’ Mas o último Adão, Jesus Cristo é o Espírito que dá vida. Não é o espi­ritual que vem primeiro, mas sim o material; depois é que vem o espiritual. O primeiro homem foi feito do pó da terra; e o segundo veio do céu. Os que pertencem à terra são como aquele que foi feito do pó da terra; os que pertencem ao céu são como aquele que veio do céu.” (I Coríntios 15.45-48 – Nova Tradução na Linguagem de Hoje).

Portanto, vamos nos debruçar sobre as diretrizes de uma masculinidade saudável que nos foram deixadas para os cidadão do reino dos céus por meio do exemplo de Je­sus:

Um Homem que Sentia

É fascinante perceber como Jesus encon­trava-se em sintonia com seus sentimentos. De modo singular o Cristo não procurava enterrar suas emoções, mas as vivenciava de maneira plena. Jesus era atento aos seus sentimentos e encontrava maneiras ade­quadas de responder a eles. Diante de uma viúva que perdera seu único filho, Jesus a vê e se comove (Lc 7.13). O escritor português José Saramago em seu livro Ensaio sobre a Cegueira declara: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Andamos tão ocupados que nada vemos, passamos pelas coisas e é como se tudo ficasse invisível. Tantos não

conseguem nem ao menos perceber os si­nais que surgem nas expressões de seus familiares. Pois em tantos momentos não vemos este outro e por conseguinte nada sentimos. O milagre de Jesus é desencade­ado na medida em que Ele vê o sofrimento daquela mulher e se permite ser tocado por seu drama. Não haveria milagre se Jesus ti­vesse reprimido seus sentimentos.

De igual maneira ao perceber os cami­nhos e descaminhos tomados pela cidade de Jerusalém, o Mestre não reage contendo seus sentimentos, mas revela sua frustra­ção e tristeza quando suas lágrimas aflo­ram:

“E, como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela” (Lucas 19.41).

Em outro momento, sua indignação emerge diante da mercantilização do Templo (João 2.16) ou ainda demonstra profunda sensibilidade ao recusar-se a condenar uma mulher que sofria com fluxo de sangue à invisibilidade, mas afirma:

“Alguém me tocou” (Lucas 8.46).

Segundo Brennan Manning, “o retraio de Jesus no evangelho é o de um homem sen­sivelmente harmonizado com suas emoções e desinibido para expressá-las. Não se en­contra em Cristo nenhuma atitude de des­dém, desprezo, temor, zombaria ou rejeição de sentimentos como sendo volúveis, bizar­ros e inconstantes. Eles eram antenas emo­cionais sensíveis com as quais ele escutava com atenção…”.( M. Brennan. Um Vislumbre sobre Jesus)

Uma visão sobre a masculinidade que ig­nore o poder e o valor das emoções é segu­ramente uma perspectiva míope. Jesus nos apresenta a possibilidade de acessarmos o que sentimos, como indicador para relações mais saudáveis e abençoadoras. Durante muito tempo e para muita gente, a masculi­nidade estava ligada a uma recusa em lidar com sentimentos ou, quando muito, apon­tava para reações pontuais de descontrole, ligadas a ira e a violência seja física, verbal ou afetiva.

Reconhecer o que sentimos é funda­mental para orientar nossas ações e cami­nhos. Lembra a ação do motorista atento não somente ao trânsito mas que também enxerga as indicações do painel do veículo, que informa sobre o óleo, a temperatura, o combustível etc.; assim como dirigir requer atenção ao estado do carro informado tam­bém no painel, viver de maneira saudável requer atenção às indicações dadas pêlos sentimentos e emoções, não para sermos escravos deles, mas sim para usá-los de maneira plena como Jesus nos ensinou.

Um Homem que Ouvia

Durante muito tempo houve uma deman­da sobre o homem como aquele que preci­sava dar as respostas. A figura do homem sábio, que tem as soluções e com isso daria as diretrizes. Muitos mergulharam de cabe­ça neste modelo, sem se darem conta de que era raso demais para as questões envolven­do o viver, ou numa inversão de acordo com a fala de Cecília Meirelles: “Eu sempre disse que era grande o oceano para nossa pequena barca”, apontando para as fragilidades pessoais frente às demandas externas.

No entanto temos um caminho apresen­tado por Jesus que é inspirador. Veja como o Mestre, apesar de sua natureza divina, de maneira plenamente humana tinha a capaci­dade de indagar, ao invés de trazer respos­tas prontas. Frente ao cego de Jericó que clamava por compaixão, Jesus interrompe a jornada, se aproxima e pergunta:

“Que queres que te faça?” (Marcos 10.50).

Jesus desvela uma masculinidade capaz de ouvir seja a fala do outro, sejam as expressões do coração.

É curioso, como bem alerta o escritor Ru­bem Alves, que são muitos os cursos de ora­tória que seguem pipocando por aí, contudo não se vê nenhum curso de “escutatória“, pois a arte de ouvir mostra-se complicada e sutil. Como ainda afirma o pensador mineiro em seu livro O Amor que Acende a Lua: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Por isso para tantos é tão difícil ouvir o outro, pois sempre temos o que dizer. A história do outro é rapidamen­te esquartejada diante do nosso: “Mas isso não é nada, veja o que aconteceu comigo…”. Portanto, esta incapacidade de ouvir aponta em dados momentos para a nossa própria arrogância, pois o que importa seria apenas o que temos a dizer.

Jesus conseguia silenciar a alma e es­cutar: a necessidade, o sofrimento e as in­dagações do outro. Jesus não interrompia ou impedia o que o outro tinha a dizer com suas próprias declarações, mas dava valor ao que o outro tinha por dizer, como no diá­logo com os discípulos:

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mateus 16.15)

Havia espaço na convivência com o Mestre para que Ele escutasse o que estava no coração dos seus seguidores. Isto não o tornava menor, mas evidenciava sua grandeza. Reconhecer que precisamos ouvir o outro e com ele podemos aprender, não nos diminui, mas amplia nos­sas possibilidades enquanto homens.

Conclusão

Sobre o homem Jesus, poderíamos para­frasear João e dizer que Ele fez e ensinou muito mais do que apresentamos até aqui. Mas, se fôssemos tentar colocar tudo, esta lição viraria livro e ainda assim não seria suficiente. Por isso, este não é um ponto de chegada, mas a indicação de um caminho a seguir, onde o Mestre torna-se nosso guia e referência para uma masculinidade sau­dável.Lembro-me do convite de Jesus:

“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora­ção, e encontrareis descanso para vossas almas, pois o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus 11.28-30).

Aqueles que se encontram pressionados por cargas imen­sas são convidados a chegar mais perto do modo de vida de Jesus de Nazaré, e apren­derem com Ele um jeito mais leve de viver e que pode trazer cura nas relações diárias.

Fonte: Homem Batista

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